<b><font color=0094E0>As greves de 1941 e 1946 na Covilhã<br>Tão distantes e tão presentes</b></font>
Já passava muito da meia-noite do dia 23 de Maio e, apesar do frio, a assistência que enchia o Auditório da Filarmónica da Vila do Carvalho não arredava pé. Cerca de duzentas pessoas assistiam, atentamente, ao debate sobre Ferreira de Castro e «A Lã e a Neve», realizado pelo Sindicato Têxtil da Beira Baixa e pela União dos Sindicatos de C. Branco, inserido num conjunto de iniciativas levadas a cabo para assinalar a passagem dos 110 anos do nascimento do escritor de Oliveira de Azeméis.
Escrito em 1947, o romance «A Lã e a Neve» aborda as greves de 1941 e 1946 dos operários têxteis da Covilhã, Tortosendo e Vila do Carvalho, bem como a vida dos pastores da Serra da Estrela.
Sons de campainhas de rebanhos, assobios e vozes de pastores, surpreenderam a assistência logo no início do debate. Um trabalho de J.P. Guerra para a rádio, feito há algum tempo, trouxe à memória de muita gente recordações de um passado não muito distante.
Presente na mesa, Fernando Paulouro, director do Jornal do Fundão, salientou que «Ferreira de Castro, através de um trabalho ficcional, levou a classe operária para a literatura como elemento dinâmico, activo, dando-lhe expressão colectiva». E, mais adiante acrescentou «Ferreira de Castro escreveu de forma intensa, com desenvoltura e limpidez, sobre a Covilhã, porque contactou com as pessoas e viveu com elas».
Por sua vez, Cristina Vieira, docente de literatura da Universidade da Beira Interior, referiu que «graças a Ferreira de Castro, a Vila do Carvalho é conhecida nos quatro cantos do mundo». Considerou indispensável os jovens conhecerem como era a vida dos operários e dos pastores, naquele tempo. «Nesta altura, em que se está a retroceder nos direitos das pessoas, quero ter bem presente para onde não quero ir. Não quero que voltem aqueles tempos. Este livro alerta-me para o que não quero para mim, nem para os meus filhos e netos», destacou a jovem professora.
Também Pedro Calheiros, professor de Literatura da Universidade de Aveiro, se debruçou sobre a obra de Ferreira de Castro, destacando o facto deste escritor estar traduzido em dezenas de países e fazer parte dos programas de Literatura do Brasil, Argentina e outros, ao contrário do nosso País em que está arredado dos manuais escolares.
Apesar de a noite já ir adiantada, Aurélio Santos, coordenador da URAP, foi muito aplaudido quando referiu que «Ferreira de Castro era um dos nossos, um resistente antifascista, como homem e como escritor».
Como surge o homem novo
Horácio, protagonista de «A Lã e a Neve», um pastor de Manteigas, vem trabalhar para uma fábrica têxtil da Covilhã, com o sonho de construir uma vida melhor. Nos anos 40, durante a 2.ª Guerra Mundial, a lã passou a ser muito procurada e as fábricas da Covilhã chegaram a empregar mais de 6000 operários.
«Este jovem pastor, salientou Aurélio Santos, é o exemplo do trabalhador que ganha uma nova consciência política através da condição operária que lhe foi imposta pelo desenvolvimento da sociedade». Para o coordenador da URAP, «o grande mérito desta obra é retratar a luta de classes: Horácio a trabalhar em dois turnos até à uma da manhã para ter um pouco mais de dinheiro para conseguir sobreviver»; a situação das mulheres, a trabalhar nas fábricas e, ao mesmo tempo, fazendo verdadeiros prodígios para conseguir alimentar as suas famílias numerosas.
Ferreira de Castro, neste seu livro, trata as mulheres como elemento de grande dinâmica social numa luta que marcou e que ainda hoje é recordada. E também o problema dos velhos operários que, no fim de uma vida de trabalho, sobreviviam pedindo esmolas, ou indo para o albergue, como o velho operário Marreta. Com sensibilidade e realismo, o autor descreve, apesar da censura fascista, as condições de vida das classes trabalhadoras dessa época.
Mas, como Marreta dizia a Horácio, «não podemos cair no pessimismo. O mundo vai andando. Há que lutar esperançados e, sobretudo, ter consciência daquilo que não nos podem tirar».
«Horácio sai do enterro de Marreta com uma concepção nova da vida. É um homem que quer continuar a lutar», afirma Aurélio Santos. Porque quem faz a História são os homens através da sua intervenção organizada. Esta é a lição de «A Lã e a Neve».
As greves, a repressão e a solidariedade
José Correia tinha 24 anos na altura da greve de 1941. Hoje, com 91 anos, ainda se lembra do dia da semana em que a greve teve início.
«Começou no dia 6 de Novembro, era sábado. O presidente do Sindicato, o Gíria, viu-se tão “apertado” pelo pessoal que enchia as escadas e a sala do Sindicato (queriam correr com ele) que telefonou ao tenente Zé Amaro. O tenente mandou lá a polícia, que pôs as pessoas na rua. Na 2.ª feira, o pessoal da Empresa Velha “levantou-se” e foi, com os da Nova Penteação, para a Fábrica Alçada. Chegámos lá e começámos a desligar as máquinas. Mas depois chegou a polícia e prendeu dezasseis trabalhadores. Levaram-nos para a esquadra, passámos lá a noite e, no dia seguinte, a polícia levou-nos para C. Branco. Aí, meteram-nos no comboio, num vagão só para nós. Íamos dezasseis presos e dezasseis polícias muito bem armados. Levávamos uma “segurança” que era uma “categoria”…”.»
Mas, apesar da repressão, as greves sucediam-se, porque, com o aumento dos preços, a vida dos operários e das suas famílias piorava dia após dia, como nos conta António Rojão, também ele operário têxtil.
«Era um tempo em que o povo nem podia dizer que tinha fome. Quando foi a greve de 1946 prenderam oitenta e oito operários, do Tortosendo e da Covilhã. Eu estive preso em Caxias mais de sete meses, bateram-me muito, a comida era pouca e ruim. Valeu-me, a mim e aos meus camaradas, a ajuda que os nossos colegas de trabalho da Covilhã e do Tortosendo nos mandavam. Nunca me hei-de esquecer disso.»
A Lã e a Neve
«(...) Ao crepúsculo, posta a um canto a enxada com que labutara o dia inteiro, pessoa da família de cada pastor, um filho, um irmão, a maioria das vezes a mulher, empreendia o caminho da serra, com um burro à frente. E, por canadas e atalhos, grimpava dez, doze, mais quilómetros, ora em silêncio fatigado, ora soltando cantiga que espairecesse o seu cansaço. Todas as encostas eram vencidas assim, ao sol poente, por estas isoladas figuras, subindo para as malhadas. Ao chegar, já noite fechada há muito, cada qual descarregava do onagro o pão e o conduto que o pegureiro e seus cães comeriam no dia seguinte e os acinchos vazios para os novos queijos a fazer. Depois, rendido da caminhada e do labor diurno, o familiar recém-chegado deitava-se na terra, junto do pastor, até que o tecto celeste, que a ambos cobria, ameaçasse clarear. Então, acomodados sobre o burro os queijos feitos na véspera, os parentes dos ovelheiros abalavam de novo, agora serra abaixo, anda, anda, a toda a pressa, para casa, para a enxada – para outro trabalho. (...)»
Sons de campainhas de rebanhos, assobios e vozes de pastores, surpreenderam a assistência logo no início do debate. Um trabalho de J.P. Guerra para a rádio, feito há algum tempo, trouxe à memória de muita gente recordações de um passado não muito distante.
Presente na mesa, Fernando Paulouro, director do Jornal do Fundão, salientou que «Ferreira de Castro, através de um trabalho ficcional, levou a classe operária para a literatura como elemento dinâmico, activo, dando-lhe expressão colectiva». E, mais adiante acrescentou «Ferreira de Castro escreveu de forma intensa, com desenvoltura e limpidez, sobre a Covilhã, porque contactou com as pessoas e viveu com elas».
Por sua vez, Cristina Vieira, docente de literatura da Universidade da Beira Interior, referiu que «graças a Ferreira de Castro, a Vila do Carvalho é conhecida nos quatro cantos do mundo». Considerou indispensável os jovens conhecerem como era a vida dos operários e dos pastores, naquele tempo. «Nesta altura, em que se está a retroceder nos direitos das pessoas, quero ter bem presente para onde não quero ir. Não quero que voltem aqueles tempos. Este livro alerta-me para o que não quero para mim, nem para os meus filhos e netos», destacou a jovem professora.
Também Pedro Calheiros, professor de Literatura da Universidade de Aveiro, se debruçou sobre a obra de Ferreira de Castro, destacando o facto deste escritor estar traduzido em dezenas de países e fazer parte dos programas de Literatura do Brasil, Argentina e outros, ao contrário do nosso País em que está arredado dos manuais escolares.
Apesar de a noite já ir adiantada, Aurélio Santos, coordenador da URAP, foi muito aplaudido quando referiu que «Ferreira de Castro era um dos nossos, um resistente antifascista, como homem e como escritor».
Como surge o homem novo
Horácio, protagonista de «A Lã e a Neve», um pastor de Manteigas, vem trabalhar para uma fábrica têxtil da Covilhã, com o sonho de construir uma vida melhor. Nos anos 40, durante a 2.ª Guerra Mundial, a lã passou a ser muito procurada e as fábricas da Covilhã chegaram a empregar mais de 6000 operários.
«Este jovem pastor, salientou Aurélio Santos, é o exemplo do trabalhador que ganha uma nova consciência política através da condição operária que lhe foi imposta pelo desenvolvimento da sociedade». Para o coordenador da URAP, «o grande mérito desta obra é retratar a luta de classes: Horácio a trabalhar em dois turnos até à uma da manhã para ter um pouco mais de dinheiro para conseguir sobreviver»; a situação das mulheres, a trabalhar nas fábricas e, ao mesmo tempo, fazendo verdadeiros prodígios para conseguir alimentar as suas famílias numerosas.
Ferreira de Castro, neste seu livro, trata as mulheres como elemento de grande dinâmica social numa luta que marcou e que ainda hoje é recordada. E também o problema dos velhos operários que, no fim de uma vida de trabalho, sobreviviam pedindo esmolas, ou indo para o albergue, como o velho operário Marreta. Com sensibilidade e realismo, o autor descreve, apesar da censura fascista, as condições de vida das classes trabalhadoras dessa época.
Mas, como Marreta dizia a Horácio, «não podemos cair no pessimismo. O mundo vai andando. Há que lutar esperançados e, sobretudo, ter consciência daquilo que não nos podem tirar».
«Horácio sai do enterro de Marreta com uma concepção nova da vida. É um homem que quer continuar a lutar», afirma Aurélio Santos. Porque quem faz a História são os homens através da sua intervenção organizada. Esta é a lição de «A Lã e a Neve».
As greves, a repressão e a solidariedade
José Correia tinha 24 anos na altura da greve de 1941. Hoje, com 91 anos, ainda se lembra do dia da semana em que a greve teve início.
«Começou no dia 6 de Novembro, era sábado. O presidente do Sindicato, o Gíria, viu-se tão “apertado” pelo pessoal que enchia as escadas e a sala do Sindicato (queriam correr com ele) que telefonou ao tenente Zé Amaro. O tenente mandou lá a polícia, que pôs as pessoas na rua. Na 2.ª feira, o pessoal da Empresa Velha “levantou-se” e foi, com os da Nova Penteação, para a Fábrica Alçada. Chegámos lá e começámos a desligar as máquinas. Mas depois chegou a polícia e prendeu dezasseis trabalhadores. Levaram-nos para a esquadra, passámos lá a noite e, no dia seguinte, a polícia levou-nos para C. Branco. Aí, meteram-nos no comboio, num vagão só para nós. Íamos dezasseis presos e dezasseis polícias muito bem armados. Levávamos uma “segurança” que era uma “categoria”…”.»
Mas, apesar da repressão, as greves sucediam-se, porque, com o aumento dos preços, a vida dos operários e das suas famílias piorava dia após dia, como nos conta António Rojão, também ele operário têxtil.
«Era um tempo em que o povo nem podia dizer que tinha fome. Quando foi a greve de 1946 prenderam oitenta e oito operários, do Tortosendo e da Covilhã. Eu estive preso em Caxias mais de sete meses, bateram-me muito, a comida era pouca e ruim. Valeu-me, a mim e aos meus camaradas, a ajuda que os nossos colegas de trabalho da Covilhã e do Tortosendo nos mandavam. Nunca me hei-de esquecer disso.»
A Lã e a Neve
«(...) Ao crepúsculo, posta a um canto a enxada com que labutara o dia inteiro, pessoa da família de cada pastor, um filho, um irmão, a maioria das vezes a mulher, empreendia o caminho da serra, com um burro à frente. E, por canadas e atalhos, grimpava dez, doze, mais quilómetros, ora em silêncio fatigado, ora soltando cantiga que espairecesse o seu cansaço. Todas as encostas eram vencidas assim, ao sol poente, por estas isoladas figuras, subindo para as malhadas. Ao chegar, já noite fechada há muito, cada qual descarregava do onagro o pão e o conduto que o pegureiro e seus cães comeriam no dia seguinte e os acinchos vazios para os novos queijos a fazer. Depois, rendido da caminhada e do labor diurno, o familiar recém-chegado deitava-se na terra, junto do pastor, até que o tecto celeste, que a ambos cobria, ameaçasse clarear. Então, acomodados sobre o burro os queijos feitos na véspera, os parentes dos ovelheiros abalavam de novo, agora serra abaixo, anda, anda, a toda a pressa, para casa, para a enxada – para outro trabalho. (...)»